Brasil

Como a nova onda da gastronomia está mudando o jeito de comer no Brasil

Inteligência artificial, sabores mais complexos, pratos regionais e influência das redes sociais estão redesenhando a experiência gastronômica dos brasileiros.

A alimentação fora de casa está passando por uma transformação que vai muito além do cardápio. Um novo levantamento sobre o food service brasileiro aponta que tecnologia, redes sociais, busca por sabores diferentes e desejo por experiências mais sofisticadas estão se misturando no cotidiano de quem pede comida ou escolhe um restaurante. O movimento ganha força justamente em um momento em que o consumidor está mais atento ao que compra, mas continua procurando novidades que tornem uma refeição especial. Entre os sinais dessa mudança aparecem a inteligência artificial aplicada à operação dos restaurantes, a valorização do umami, o interesse por culinárias regionais e a força de tendências que nascem nas redes sociais. Para o leitor, a pergunta deixa de ser apenas “o que está em alta na gastronomia?” e passa a ser: por que estamos escolhendo comer de maneira diferente?

A inteligência artificial começa a aparecer onde o cliente nem sempre percebe

Quando se fala em inteligência artificial na gastronomia, é comum imaginar aplicativos recomendando restaurantes ou sistemas respondendo mensagens automaticamente. A transformação que começa a ganhar espaço, porém, acontece principalmente nos bastidores. Um relatório elaborado pelo iFood em parceria com a WGSN aponta a utilização da tecnologia como uma camada operacional capaz de ajudar restaurantes a prever demanda, organizar estoques, reduzir desperdícios e tornar processos mais eficientes. Isso significa que a IA pode participar de decisões que o consumidor não enxerga diretamente, mas que interferem na disponibilidade dos pratos, no tempo de atendimento e até na capacidade de um estabelecimento lidar com horários de maior movimento. A tecnologia, nesse cenário, deixa de ser apenas uma ferramenta de marketing e passa a fazer parte da administração cotidiana de negócios de alimentação.

Essa mudança também ajuda a explicar por que a gastronomia está cada vez mais ligada ao universo do lifestyle. Para o consumidor, uma experiência positiva não depende somente do sabor, mas envolve praticidade, variedade, apresentação, tempo de espera e facilidade para descobrir algo novo. O levantamento aponta que o uso de inteligência artificial entre brasileiros já alcançou uma parcela expressiva da população, criando um ambiente favorável para que ferramentas tecnológicas sejam incorporadas a diferentes setores. No food service, isso pode significar operações mais preparadas para momentos de grande procura e uma capacidade maior de adaptar ofertas ao comportamento do público. Ao mesmo tempo, a tecnologia não elimina a importância da criatividade humana: chefs, cozinheiros e empreendedores continuam responsáveis pela identidade dos pratos e pela experiência que transforma uma refeição comum em algo memorável. A tendência, portanto, é de uma gastronomia cada vez mais híbrida, em que inovação digital e criatividade culinária caminham juntas.

O paladar brasileiro está ficando mais curioso e sofisticado

Outra transformação chama atenção porque acontece diretamente no prato. O estudo antecipado pelo iFood e pela WGSN indica crescimento do interesse por sabores mais complexos, com destaque para o umami, conhecido como o quinto gosto básico do paladar. A pesquisa aponta que 72% dos usuários do aplicativo consideram que seu paladar ficou mais complexo nos últimos anos, enquanto diferentes combinações de sabores, como defumados, agridoces e picantes, despertam interesse. Esse comportamento mostra que o consumidor brasileiro está mais disposto a experimentar ingredientes, técnicas e referências culinárias que antes poderiam parecer menos familiares. Em vez de buscar apenas uma comida conhecida, parte do público quer descobrir novas sensações e transformar o próprio pedido em uma pequena experiência gastronômica.

O movimento aparece também na aproximação entre comida sofisticada e consumo cotidiano. Segundo os dados divulgados, 36% dos restaurantes parceiros do iFood perceberam aumento na procura por opções consideradas mais sofisticadas, enquanto os consumidores associam essa percepção a ingredientes especiais, chefs conhecidos, embalagens diferenciadas e principalmente à apresentação visual do prato. É uma mudança importante para entender a gastronomia contemporânea: o conceito de “premium” não está necessariamente ligado a uma refeição cara ou reservada para ocasiões especiais. Ele pode aparecer em um pedido de delivery, em uma sobremesa diferente ou em uma receita regional apresentada de maneira criativa. Para o consumidor, isso significa ter acesso a experiências mais elaboradas sem precisar necessariamente transformar cada refeição em um grande evento. Para restaurantes, significa encontrar novas formas de criar valor por meio de sabor, aparência, história e identidade.

Redes sociais e sabores regionais estão criando novas descobertas

As redes sociais também ganharam um papel decisivo nessa transformação. Um alimento pode deixar de ser apenas uma receita e se tornar um fenômeno cultural quando imagens, vídeos curtos e recomendações despertam curiosidade em milhares de pessoas. O levantamento mostra o tamanho desse efeito ao registrar crescimento de 2.300% nos pedidos de morango do amor em 2025 na comparação com o ano anterior. Outro exemplo é o bolo pudim, cuja busca avançou cerca de 128% em 2026, segundo os dados apresentados. O comportamento revela que a descoberta gastronômica está cada vez mais conectada à cultura digital: muitas pessoas conhecem um prato primeiro pela tela do celular e só depois decidem experimentar. A comida passa, assim, a participar da mesma lógica de tendências que movimenta moda, música, entretenimento e beleza.

Mas existe outro movimento especialmente interessante para o Brasil: a redescoberta da própria diversidade culinária. O relatório aponta que o delivery funciona como uma ponte para sabores regionais que muitos consumidores ainda não provaram. Entre os exemplos citados estão o barreado, o tacacá e o pato no tucupi, pratos que despertam interesse mesmo entre pessoas que ainda não tiveram contato direto com essas cozinhas. Os dados também indicam crescimento na procura por diferentes culinárias, com destaque para a asiática, a francesa, a baiana, a tailandesa, a nordestina e a árabe. O resultado é uma gastronomia menos limitada às referências do bairro ou da cidade onde o consumidor vive. Aplicativos, redes sociais e novos modelos de restaurantes ampliam o repertório e permitem que sabores de diferentes partes do país cheguem a públicos que antes dificilmente teriam acesso a eles.

A mudança no comportamento do brasileiro, portanto, não pode ser explicada apenas pela tecnologia ou por uma nova moda gastronômica. O que está acontecendo é uma combinação de fatores que transforma a relação com a comida: o consumidor quer praticidade, mas também deseja novidade; procura conveniência, mas valoriza experiências; utiliza ferramentas digitais, mas demonstra interesse crescente por tradições e sabores regionais. A gastronomia passa a ocupar um espaço ainda maior dentro do lifestyle, conectando alimentação, entretenimento, cultura e identidade.

O próximo passo dessa transformação será observar quais tendências conseguem sobreviver ao ciclo rápido das redes sociais e quais realmente se tornam hábitos. O interesse por sabores regionais, por experiências mais sofisticadas e por novas combinações pode criar oportunidades para restaurantes que saibam unir criatividade e identidade. Já a inteligência artificial tende a ganhar importância nos bastidores, ajudando negócios a compreender melhor seus clientes e suas operações. Para quem está do outro lado da tela, a consequência é simples e interessante: escolher o que comer está se tornando também uma forma de descobrir culturas, acompanhar tendências e experimentar novidades sem necessariamente sair da rotina.

Fontes consultadas: CNN Brasil — IA, umami e conteúdos virais: tendências do food service no Brasil · Mercado & Consumo — tendências do foodservice em 2026 · Central do Varejo — tendências apresentadas pelo iFood e WGSN

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo