A disputa pela conexão via satélite direto ao celular ganhou um novo capítulo no Brasil. A americana AST SpaceMobile, concorrente da Starlink nesse segmento, recebeu autorização da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para ampliar sua operação no país e trabalha na implantação da estrutura necessária para conectar smartphones comuns diretamente à sua constelação de satélites.
Segundo reportagem da EXAME, a empresa obteve autorização para utilizar 30 MHz de espectro na banda S. Também foi aprovado o uso secundário de até 20 MHz na faixa de 700 MHz, mediante acordos com operadoras regionais brasileiras. A estratégia coloca o país entre os mercados prioritários da companhia.
Como funciona a conexão direta entre satélite e celular
A tecnologia é conhecida internacionalmente como Direct-to-Device, ou D2D. Na prática, os satélites funcionam como torres de telefonia posicionadas em órbita. Em vez de depender exclusivamente de uma antena terrestre próxima, o smartphone se comunica com o satélite quando está em uma área sem cobertura convencional.
De acordo com a divulgação da empresa publicada pela EXAME, a proposta poderá permitir mensagens, chamadas de voz, dados móveis e vídeo em aparelhos comuns, sem a necessidade de instalar uma antena externa ou baixar um aplicativo específico. A parceria também prevê aplicações de internet das coisas, como sensores utilizados no campo, em equipamentos de logística e em sistemas de monitoramento remoto.
A consulta pública da Anatel já havia registrado o interesse da AST SpaceMobile em operar nas faixas de 1.995 MHz a 2.010 MHz e de 2.185 MHz a 2.200 MHz. O documento trata do sistema SpaceMobile como parte do serviço móvel por satélite e destaca a necessidade de organizar a convivência entre diferentes redes que utilizam frequências semelhantes.
Operadoras regionais serão responsáveis pela oferta
A AST SpaceMobile não pretende vender planos diretamente ao consumidor brasileiro. O modelo será baseado em acordos com operadoras móveis, que poderão incorporar a conectividade via satélite aos próprios serviços. Caberá a essas empresas definir preços, formatos de contratação e condições de uso para seus clientes.
Brisanet, Unifique, Iez! Telecom e Amazônia 5G aparecem como parceiras da operação. Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários, a Brisanet informou que o acordo comercial prevê a oferta de banda larga móvel via satélite em todo o território nacional.
O comunicado também explica que as operadoras regionais disponibilizarão frequências da faixa de 700 MHz e investirão na infraestrutura necessária para conectar suas redes à constelação da AST por meio de gateways terrestres. Essas estações fazem a ligação entre os satélites em órbita e o núcleo das redes de telecomunicações instaladas no solo.
Áreas rurais e rodovias estão entre as mais beneficiadas
O principal impacto esperado está em regiões onde a expansão de antenas terrestres é mais difícil ou menos econômica. A tecnologia pode atender usuários em propriedades rurais, estradas, comunidades afastadas e localidades de baixa densidade populacional, além de complementar a cobertura em pontos onde o sinal 4G e 5G é instável.
Na avaliação apresentada pela AST SpaceMobile, cerca de metade das rodovias federais e estaduais e dois terços das terras disponíveis para agricultura não contam com sinal de quarta ou quinta geração. A estimativa ajuda a dimensionar o espaço de mercado para soluções que não dependem da instalação imediata de novas torres em cada área remota.
Os acordos com as operadoras regionais também estão relacionados às obrigações de cobertura associadas aos lotes de 700 MHz adquiridos em leilões da Anatel. Segundo a EXAME, essas obrigações alcançam cidades pequenas e trechos de rodovias, o que aproxima a conexão via satélite de uma estratégia complementar à expansão das redes móveis tradicionais.
Disputa com a Starlink aumenta no mercado brasileiro
A chegada da AST SpaceMobile amplia a concorrência com a Starlink, empresa da SpaceX que já opera no Brasil com banda larga fixa via satélite. No segmento de conexão direta ao celular, porém, as duas companhias dependem de parcerias com operadoras para alcançar os usuários finais.
A disputa também envolve a banda S, considerada estratégica para o desenvolvimento desse tipo de serviço. A Anatel autorizou em maio o sistema SpaceMobile, formado por até 248 satélites, inicialmente com um bloco de 10+10 MHz. Em outubro, conforme relatado pela EXAME, a agência ampliou a autorização da AST para 15+15 MHz e concedeu à Starlink uma parcela semelhante da faixa.
O lançamento comercial da AST SpaceMobile no Brasil ainda não tem data definida. A operação depende da conclusão dos gateways terrestres, da integração com as redes parceiras e do crescimento da constelação BlueBird, que precisa alcançar escala suficiente para oferecer cobertura mais ampla e contínua.




